A peça "As Nuvens", de Aristófanes, está centrada na relação de dois personagens: Estrepsíades, um nobre grego que está endividado devido à sua própria falta de controle e devido à personalidade (e vícios) do filho; e Sócrates, o filósofo grego, a quem o primeiro personagem apela para aprender a arte do discurso e assim conseguir convencer seus credores a não cobrarem suas dívidas livrando-se da possibilidade de perder os seus bens.
O que me parece central na peça é a forma como o conhecimento e os dois personagens principais foram retratados, sendo que o primeiro dá ao conhecimento um caráter utilitarista, de “coisa” que pode resolver o seu problema se bem ensinado e bem aprendido. Já o segundo personagem, Sócrates, que é retratado de forma crítica e burlesca pelo autor, demonstra preocupações com questões desligadas da realidade, mas, ao mesmo tempo, parece se colocar acima daqueles que não detém os mesmos conhecimentos que ele. Ambos, com suas intenções e ações, parecem se guiar por lógicas que estão distantes da realidade impedindo-os de estabelecer com ela uma relação mais estreita.
O que mais me chamou a atenção na peça foi a forma como Sócrates é retratado, como alguém que subverte os valores tradicionais. Vide o diálogo da página 27, no qual questiona “Vais jurar por quais deuses? Porque, em primeiro lugar, os deuses não são moeda corrente entre nós.” Parece haver no personagem um grande descaso por tudo que Estrepsíades leva como ser de “fora” para o Pensatório. Porém, a forma crítica e cômica com que o autor retrata o imediatismo de Estrepsíades também chama a atenção. Por exemplo, no diálogo das páginas 45 e 46:
SÓCRATES: Vamos, o que desejas aprender primeiro, agora, das coisas que nunca te ensinaram? Diz! Sobre a métrica, ou sobre os versos, ou ritmos? ESTREPSÍADES: Sobre a métrica por mim: pois há pouco fui enganado por um farinheiro em duas medidas. SÓCRATES: Não te pergunto isso, mas sim qual metro julgas mais bonito: o trímetro ou o tetâmetro? ESTREPSÍADES: As Nuvens Eu nada coloco acima da quarta de litro. SÓCRATES: Quanta bobagem! ESTREPSÍADES: Aposta agora comigo se o tetrâmetro não é uma quarta de litro. SÓCRATES: Vai para o inferno! Como és rústico e burro! Talvez pudesses aprender sobre os ritmos mais rápido.
O personagem Estrepsíades não consegue (porque não quer) ver nada além de seu objetivo imediato ou da bagagem cultural e intelectual que já tem. Talvez esse seja um ponto em que a peça se relaciona com o tema da disciplina: o cidadão de “carne e osso” do século XXI se mantém obstinado em atentar somente aquilo que confirma as convicções que já tem. Mas, seria isso ilegítimo? Várias referências da Ciência Política afirmam que os eleitores não têm uma noção muito “sofisticada” da política, da democracia, das posições políticas etc. Mas entendem bem quais são suas necessidades reais mais imediatas, ou, como afirmam Bowler e Donovan (1998) "Os eleitores, para usar uma analogia, podem saber muito pouco sobre o funcionamento do motor de combustão interna, mas sabem dirigir.” Os “Estrepsíades” têm direito de participação na democracia e apontam para aquilo que conseguem enxergar como forma de alcançar seus interesses. Teria isso gerado uma crise? Independentemente da resposta, a simples reflexão sobre essa questão nos levará a outras perguntas importantes sobre o tema.