O centro da peça é uma crítica ao poder da retórica de moldar percepções e inverter valores sociais. Ao colocar Sócrates como chefe de um Pensadouro ridículo e ao contrapor o discurso melhor e o discurso pior, Aristófanes mostra como o discurso pode ser usado não para revelar a verdade, mas para construir narrativas capazes de convencer e influenciar o coletivo.
Esse é justamente o aspecto que mais me chamou a atenção, pois no marketing político, gestão de crise, na construção de reputação e redes sociais, a percepção é de extrema importância. Assim como Estrepsíades queria aprender argumentos apenas para enganar credores, hoje, é necessário utilizar estratégias de comunicação para modelar a opinião pública, criar imagens e narrativas favoráveis e, muitas vezes, legitimar o injustificável.
A peça mostra que a disputa não é apenas sobre fatos, mas sobre como eles são comunicados e interpretados. Na democracia ateniense isso acontecia pela oratória nos tribunais e na Assembleia; na democracia atual, esse embate acontece também nas redes sociais, onde a velocidade e a viralização dos discursos potencializam a capacidade de moldar percepções coletivas.
Portanto, o que é central em As Nuvens conecta-se diretamente ao campo em que atuo: a comunicação política estratégica. Aristófanes já revelava que quem domina a palavra domina a percepção — e isso continua sendo a chave do poder político hoje. Quem detém a narrativa, detém a atenção. Com isso, constrói conexões, influencia e engaja o eleitorado, transmitindo valores, prendendo a atenção da audiência e gerando simpatia pela persona pública.