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Retórica e democracia - uma questão

Retórica e democracia - uma questão

por Tiago Mazeti (202500052) -
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Se ser cidadão é algo que se faz pela palavra, mais especificamente pelo uso público da palavra em situação de reconhecimento daquilo que é dito pelos iguais e em situação de disputa e deliberação sobre a coisa pública, então a generalização do direito de falar publicamente é característica distintiva, e talvez sine qua non, da democracia. Ser cidadão significa ter o direito à palavra e ter sua palavra reconhecida. Mas teria o cidadão que se preocupar com a qualificação daquilo que fala? Como afirma Fontana, baseando-se em Tucídides, os líderes da fração democrática são eles próprios homens de substância e educação, habilidosos em administração (pública e privada) e nas formas e métodos de se dirigir à assembleia (p. 33-34). Estaria o cidadão de hoje preparado para falar? Teria ele de se preparar para o uso da palavra pública? Se sim, quem tem o dever de preparar os cidadãos para o uso da palavra pública?

Chama a atenção no texto o fato de que o conhecimento necessário para o exercício da retórica representa um poder de afirmar a vontade de alguém sobre outros e mostrar, de forma persuasiva, quais caminhos são desejáveis segundo um determinado ponto de vista para a solução dos problemas públicos de um grupo ou de toda coletividade. Mas, ao mesmo tempo que a filosofia política afirmava que a mudez é percebida como o símbolo de impotência e dependência, falar por falar, ou falar qualquer coisa que expresse uma via que representa os interesses de um grupo podem significar o declínio do vernáculo. O autor traz à tona um fato importante: a forma como se usa uma linguagem específica mostra algo sobre as equações de poder entre os grupos e qual é o grau de influência que os “muitos” exercem nas arenas de poder.

Mas não podemos nos esquecer de forma alguma, em qualquer análise que se faça sobre a democracia, que a retórica lhe é uma característica intrínseca que sempre está relacionada a ideias como concorrência e conflito. Creio ser essa a relação do texto com a disciplina: o momento atual de nossa história é marcado por uma intensificação da disputa política e o recurso da palavra se faz presente e está fortemente anabolizado pelo uso das redes sociais. Nesse processo, o uso da palavra “narrativa” tem sido recorrente, mas com o intuito, por parte de alguns, de descredibilizar a palavra do adversário, cada vez mais posto na condição de “inimigo”, que, supostamente, não teria direito de expor o que quer. Mas estaria realmente algum grupo fazendo uso da palavra para expor ideias ilegítimas, ou ele somente tem ganhado terreno numa área em que outros grupos já foram mais influentes? Há duas questões a serem discutidas que podem ser postas numa mesma questão: como se preza pela qualidade retórica e democrática sem sustar o direito que um determinado grupo tem de expor o que pensa?