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Resumo, crítica e relação

Resumo, crítica e relação

por Rafael Nogueira Alves Tavares da Silva (202500062) -
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O núcleo do ensaio "Rhetoric and the roots of democratic politics", de Benedetto Fontana, é a tensão entre dois modos de compreender a retórica: 1) como elemento constitutivo da vida republicana e democrática, inseparável da liberdade e da igualdade, pois falar em público é exercer a liberdade de falar em igualdade de condições (cidadania); 2) como instrumento de manipulação, capaz de seduzir, enganar e fabricar ficções com aparência de verdade.

Essa ambiguidade atravessa toda a tradição política ocidental, de Górgias e Aristóteles, que ligam a retórica à participação cívica, a Platão, que a vê como perigosa, até Maquiavel, Hobbes e os Federalistas, que lidam com o conflito faccional e com os riscos da palavra pública. A retórica é inseparável do conflito e, portanto, da própria democracia.

O que mais impressiona é a maneira como o autor mostra a ambivalência platônica: em Górgias, a retórica é denunciada como lisonja; já em Fedro, ela é parcialmente reabilitada como “verdadeira retórica”, subordinada à filosofia, que usa a persuasão para educar. Isso revela que o problema não é apenas se a retórica engana ou instrui, mas quem a controla e com quais fins.

Chamou atenção também a solução dos Federalistas: aceitar a retórica faccional como inevitável, mas “domesticá-la” institucionalmente pela multiplicação de facções e pelo sistema de freios e contrapesos. Isso levanta uma questão: seria preferível ampliar o espaço do debate público, correndo o risco dos demagogos conduzirem todos ao caos, ou restringi-lo, correndo o risco de um discurso oficial monopolizado? Em outras palavras: o pior perigo é a tirania da palavra única ou a cacofonia sem freios?

O programa da disciplina mostra que a crise da democracia é pensada a partir da tensão entre opinião e verdade e dos conflitos morais inconciliáveis que emergem no espaço público. O autor oferece contribuição efetiva para isso:

Se a democracia é inseparável da retórica, ela é inseparável do conflito discursivo. Retórica é essência do regime, não acidente.

Quando o Estado responde à retórica popular com retórica oficial armada de força (como em Hobbes ou em regimes contemporâneos que censuram), temos algo como o Leviatã se impondo: a substituição do logos plural pelo logos monopolizado.

A disciplina discute também as guerras culturais. O Fontana ajuda a entender que tais disputas são condição permanente da democracia, pois nela a linguagem é sempre campo de batalha. A crise não é exceção nem desvio. É regra de uma ordem fundada na palavra e no dissenso.

Por fim: retórica e crise são duas faces da mesma moeda. Onde há democracia, há disputa, facções, persuasão e manipulação. Onde não há isso, temos silenciamento, tirania, e, numa visão arendtiana, violência -- ou seja, a morte da política.