1 - O aspecto central do artigo de Fontana é a relação entre democracias ou repúblicas, isto é, governos populares, em que a decisão de coisas públicas depende de um grande número de pessoas, e o desenvolvimento da arte retórica. Ora, a partir do estabelecimento dessa forma de governo, surge a necessidade de convencimento desse grande contingente de pessoas, o que só pode ser feita por meio da retórica. Essa ligação foi explorada com riqueza de detalhes, como mostra Fontana, pelos filósofos da Grécia antiga.
2 - Chamo a atenção para um ponto muito interessante constatado por Fontana, que essa oposição entre razão e retórica já estava presente na própria palavra grega logos, que pode significar tanto razão, pensamento racional quanto linguagem, discurso.
Outro ponto digno de nota é o seguinte: se, como nota Fontana, a retórica consiste, no fundo, em adaptar o seu discurso à sua audiência, então é interessante notar como Platão, apesar de seu marcante racionalismo, acabou por se render a essa arte, pois utiliza largamente esse expediente em seus diálogos. Ora, na maioria de seus diálogos ele apresenta um raciocínio , demonstração racional, para aqueles que ele acredita possuirem a predominância da alma racional, junto também com os seus famosos mitos, que se destinam, nesse sentido, a persuadir aquele público que não consegue acessar o logos. Ora, essa modulação do escrito para atingir diferentes públicos pode ser considerada como uma das formas mais inequívocas de retórica.
3 - A democracia, como foi demonstrado no artigo, está ligada umbilicalmente com a retórica, portanto, é um regime que , como afirmado pelo Professor Jean Castro, não tem o menor compromisso com a verdade, com um conhecimento mais sólido, estável, o que, em termos platônicos, poderíamos designar como episteme. Pois a retórica, como já entendia Platão, visa ao convencimento por meio do meramente aparente, do provável, da opinião, da doxa.