É curiosa a forma como o pensamento humano funciona: rápido, sistema 1, que “opera automática e rapidamente, com pouco ou nenhum esforço e nenhuma percepção de controle voluntário”, e o sistema 2, que “aloca atenção às atividades mentais laboriosas que o requisitam, incluindo cálculos complexos”. Chama a atenção o fato de que o sistema 2 é “preguiçoso” e consumir muita energia, sendo o sistema 1 responsável pelas “impressões e sensações que são as principais fontes das crenças explícitas e escolhas deliberadas do Sistema 2.” Trata-se, portanto, de um mecanismo natural a partir do qual agimos e reagimos às mais variadas situações, inclusive sociais. É impossível não nos perguntarmos, uma vez que o autor afirma que “o sistema 2 é ativado quando se detecta um evento que viola o modelo do mundo mantido pelo Sistema 1”, se muitos conflitos que ocorrem hoje no campo da política, principalmente no âmbito moral, não são reações estimuladas por este sistema de pensamento.
Interessante a situação caracterizada pela tarefa de contar quantas letras “f” há numa determinada página e depois contar o número de vírgulas da outra página. O autor afirma que a segunda tarefa será mais difícil, pois você terá de “superar a tendência recém-adquirida de concentrar sua atenção na letra ‘f’”. Imagino que esta tendência também ocorra sobre situações sociais que estão relacionadas ao processo de socialização e, posteriormente, a situações que exigem mudanças simbólicas e comportamentais.
Os efeitos disso sobre a democracia devem acarretar conflitos e um grande desafio às instituições democráticas. Em meio às demandas por mudanças exigidas por determinados grupos, e à forma como outros grupos reagem a elas, como podemos canalizar os conflitos para a criação de fatores que fortaleçam a democracia sem destruir a possibilidade de dissenso e de contestação, tendo em conta tratar-se de características democráticas importantes, considerando os erros a que estamos sujeitos devido ao nosso sistema de pensamento e percepção da realidade?