Comentário Kahneman

por Gabriel Calçada Barros da Silva (202500047) -

1 - O fato, constatado por Kahneman, de que o ser-humano vive maior parte do tempo "engatado" no sistema 1, de que em última análise este sistema produz a maioria das nossas crenças e impressões. Tudo para evitar gastos excessivos de energia, já que este sistema exige menos "combustível", e contar com respostas rápidas para as nossas necessidades diárias. É possível afirmar, então, que essa descoberta de Kahneman, de certa forma, corrobora a chamada lei da mínima ação proposta por Maupertuis, de que a natureza guiaria  os seus "projetos" pela diretriz de sempre gastar o menos possível de energia e ação.

2 -Kahneman, em suas pesquisas, detectou que o ser-humano possui dois sistemas de pensamento, o chamado "sistema 1", que é rápido e intuitivo, buscando sempre atalhos cognitivos, e o chamado "sistema 2" que é lento, analítico e custoso. 

3 - Se de fato vivemos a maior parte do tempo "engatados" no sistema 1, então, em meio à constatada polarização política, uma discussão moral e política respeitosa exigiria um esforço consciente de não ser levado automaticamente pelas indicações e viéses do sistema 1 e de se manter o tanto quanto possível  no sistema 2.

Rápido e devagar - comentário sobre o texto de Daniel Kahneman

por Tiago Mazeti (202500052) -

É curiosa a forma como o pensamento humano funciona: rápido, sistema 1, que “opera automática e rapidamente, com pouco ou nenhum esforço e nenhuma percepção de controle voluntário”, e o sistema 2, que “aloca atenção às atividades mentais laboriosas que o requisitam, incluindo cálculos complexos”. Chama a atenção o fato de que o sistema 2 é “preguiçoso” e consumir muita energia, sendo o sistema 1 responsável pelas “impressões e sensações que são as principais fontes das crenças explícitas e escolhas deliberadas do Sistema 2.” Trata-se, portanto, de um mecanismo natural a partir do qual agimos e reagimos às mais variadas situações, inclusive sociais. É impossível não nos perguntarmos, uma vez que o autor afirma que “o sistema 2 é ativado quando se detecta um evento que viola o modelo do mundo mantido pelo Sistema 1”, se muitos conflitos que ocorrem hoje no campo da política, principalmente no âmbito moral, não são reações estimuladas por este sistema de pensamento.

Interessante a situação caracterizada pela tarefa de contar quantas letras “f” há numa determinada página e depois contar o número de vírgulas da outra página. O autor afirma que a segunda tarefa será mais difícil, pois você terá de “superar a tendência recém-adquirida de concentrar sua atenção na letra ‘f’”. Imagino que esta tendência também ocorra sobre situações sociais que estão relacionadas ao processo de socialização e, posteriormente, a situações que exigem mudanças simbólicas e comportamentais.

Os efeitos disso sobre a democracia devem acarretar conflitos e um grande desafio às instituições democráticas. Em meio às demandas por mudanças exigidas por determinados grupos, e à forma como outros grupos reagem a elas, como podemos canalizar os conflitos para a criação de fatores que fortaleçam a democracia sem destruir a possibilidade de dissenso e de contestação, tendo em conta tratar-se de características democráticas importantes, considerando os erros a que estamos sujeitos devido ao nosso sistema de pensamento e percepção da realidade?

Resposta

por Rafael Nogueira Alves Tavares da Silva (202500062) -

O que chamou minha atenção foi:

A exploração dos dois sistemas de pensamento e a forma como eles influenciam nossos julgamentos e decisões, muitas vezes de maneira inconsciente e enviesada, foi o que mais chamou a minha atenção.

 A discussão sobre as heurísticas e vieses cognitivos, como a heurística da disponibilidade e a ilusão de compreensão, seria particularmente relevante. A ideia de que somos "cegos para nossa própria cegueira" em relação a esses vieses ressoa com a importância que dou à autocrítica e à busca pela verdade, mesmo quando elas desafiam nossas intuições.

 A distinção entre intuição especializada (fruto de prática) e intuições enviesadas (fruto de atalhos mentais) também são um ponto de grande interesse, dado o valor que dou à sabedoria prática e ao juízo bem-formado.

 O que é central no texto?

 O ponto central da Parte 1 de "Rápido e Devagar" é a apresentação e a distinção entre dois sistemas de pensamento que operam na mente humana: o Sistema 1 (intuitivo, rápido, automático e sem esforço) e o Sistema 2 (deliberativo, lento, controlado e que exige esforço). Kahneman argumenta que o Sistema 1 é o autor da maioria de nossos julgamentos e escolhas, gerando impressões e intuições que o Sistema 2, muitas vezes, endossa sem questionar. O texto detalha como o Sistema 1, apesar de eficiente na maioria das situações, é propenso a vieses cognitivos (erros sistemáticos e previsíveis) que podem levar a julgamentos equivocados. A interação entre esses dois sistemas, a forma como o Sistema 2 é mobilizado para corrigir ou monitorar o Sistema 1, e a dificuldade inerente em superar certas ilusões cognitivas são temas fundamentais.

Em síntese, o texto busca enriquecer a percepção e o vocabulário para discutir e compreender os erros de julgamento e de escolha, tanto em nós mesmos quanto nos outros.

Como relacionar com o tema "crises da democracia e conflitos morais"?

 A Parte 1 do livro de Kahneman oferece insights importantes para relacionar com o tema "crises da democracia e conflitos morais", especialmente no que tange à formação de opiniões, à polarização e à dificuldade de consenso.

 A compreensão de que o Sistema 1 opera de forma automática e é propenso a vieses (como o efeito halo, a heurística da disponibilidade e a confiança na semelhança em detrimento de dados estatísticos) é fundamental. Em contextos democráticos, onde a formação da opinião pública é vital, esses vieses podem levar a julgamentos simplistas, reações emocionais e a uma superestimação da própria compreensão sobre questões complexas. Isso se conecta diretamente com a discussão sobre a tensão entre democracia e verdade e os limites da razão na política, conforme abordado na Unidade I do programa.

A heurística da disponibilidade, por exemplo, explica por que certas questões ganham proeminência na mente do público (muitas vezes devido à cobertura midiática sensacionalista), enquanto outras, igualmente importantes, são negligenciadas. Isso é diretamente aplicável ao fenômeno da desinformação (Semana 10 do programa), na qual a facilidade com que informações (mesmo que falsas) são acessadas e repetidas pode moldar a percepção da realidade e intensificar a polarização.

A "cegueira para nossa própria cegueira" mencionada por Kahneman é relevante aqui, pois as pessoas podem estar inconscientemente suscetíveis a informações enviesadas, sem perceber a influência desses atalhos mentais.

A tarefa do Sistema 2 de "dominar os impulsos do Sistema 1" e a ideia de que o Sistema 2 é encarregado do autocontrole são particularmente pertinentes aos conflitos morais e guerras culturais.

Em debates acalorados, as reações automáticas e emocionais do Sistema 1 podem prevalecer, dificultando o diálogo racional e a busca por soluções. A capacidade de reconhecer e mitigar esses impulsos é essencial para navegar em disputas normativas e evitar a escalada de conflitos. A dificuldade de "pensar estatisticamente" (mencionada por Kahneman como um enigma) também se reflete na relutância em considerar dados e evidências que contradizem intuições ou crenças arraigadas, um desafio comum em discussões sobre temas morais e sociais.

O desafio de Kahneman à pressuposição de que a mente humana é puramente racional e lógica, e a ênfase nos erros sistemáticos do pensamento intuitivo, dialogam com a crítica à racionalidade na política presente em autores como Nietzsche e Carl Schmitt, que o programa aborda nas Unidades II e III. A obra de Kahneman fornece uma base psicológica para entender por que os agentes políticos (e os cidadãos) podem se desviar do comportamento "racional" esperado, influenciados por vieses e atalhos mentais, o que contribui para as "crises da democracia" ao minar a capacidade de deliberação e consenso.

A estrutura de dois sistemas de Kahneman oferece uma lente poderosa para analisar as dinâmicas psicológicas subjacentes às crises democráticas e aos conflitos morais, destacando como os vieses cognitivos e a natureza do pensamento intuitivo podem dificultar o debate racional e influenciar a percepção da verdade no espaço público.

Respostas

por Tuliana Fernandes Rosa (202505667) -

1. O que chamou a sua atenção?

O que mais chama a atenção é a clareza com que Kahneman apresenta os dois modos de pensar — o Sistema 1, rápido, intuitivo e automático, e o Sistema 2, mais lento, analítico e deliberado. É impressionante perceber como, na maior parte do tempo, nossas decisões não são fruto de raciocínio consciente, mas de processos automáticos que economizam energia mental, embora frequentemente nos levem a vieses e erros de julgamento.

Percebemos como a maior parte das nossas escolhas não vem de um raciocínio profundo, mas de intuições rápidas e automáticas. Muitas vezes eu acredito que estou “pensando bem” ou sendo racional, mas, na verdade, já tomei a decisão pelo impulso do Sistema 1, e depois só procuro justificativas. Esse ponto me fez refletir muito sobre como funcionam minhas próprias reações no dia a dia.

 

2. O que é central no texto?

Kahneman mostra que, embora o Sistema 2 seja mais preciso, temos uma tendência natural a depender do Sistema 1, o que explica muitos equívocos individuais e coletivos.

Para mim, o central é justamente a ideia de que convivem em nós dois modos de pensar: um rápido, intuitivo e quase inconsciente, e outro mais lento, lógico e analítico. Kahneman mostra que é natural preferirmos o rápido, porque ele nos poupa esforço. Mas esse “atalho mental” também nos torna mais vulneráveis a erros e julgamentos precipitados.

 

3. Como relacionar com o tema "crises da democracia e conflitos morais"?

Kahneman nos ajuda a perceber como a vulnerabilidade da mente humana a atalhos cognitivos e decisões automáticas pode enfraquecer a democracia e acirrar os conflitos morais. É fácil notar como muitas decisões políticas são guiadas mais pela emoção do que pela razão. As pessoas reagem a discursos fáceis, frases de efeito e fake news porque tudo isso conversa direto com o Sistema 1, que busca respostas rápidas. O espaço para reflexão crítica (Sistema 2) acaba sendo menor, e isso abre brechas para manipulação.

Muitas vezes tomamos posição por instinto — indignação, empatia ou repulsa imediata — e só depois procuramos argumentos para sustentar aquela posição. É por isso que os debates ficam tão polarizados: porque não se trata só de lógica, mas de emoções profundas que já se instalaram.