O ponto central do texto é o conceito que o autor apresenta sobre o político, que é marcado por um certo teor teológico. À noção de que o conceito de Estado pressupõe o conceito de político, o que o autor classifica como “erro ingênuo”, pois a ideia de que o Estado seria todo o universo político, ou sua melhor definição, o que resultaria na dedução de que toda sociedade (fora do Estado) seira apolítica, o autor impõe correções. A partir de uma reflexão que se assemelha a uma comparação na qual o conceito de político deve se pautar numa espécie de oposição que marca qualitativamente os grandes domínios “relativamente autônomos do pensamento e da ação humana”, como a moral, marcada pelo bom e pelo mau, a estética, marcada pelo belo e pelo feio, e o econômico, marcado pelo útil e pelo prejudicial, a “diferenciação” na política seria marcada pela oposição entre “amigo e inimigo” (como critério e não como definição de conteúdo).
O autor explica que o conceito de político, baseado na antítese “amigo – inimigo”, é autônomo no sentido de não se fundamentar nas outras antíteses mencionadas, ou em quaisquer outras, podendo existir na prática e na teoria sem recorrer a elas e sem empregá-las. “O inimigo político não precisa ser moralmente mau ou esteticamente feio.” Para ser inimigo, basta que o outro seja existencialmente algo diferente e desconhecido e que seja possível ter conflitos com ele que não podem ser decididos por uma normalização geral empregada antecipadamente, nem através de sentença dada por um “terceiro não envolvido” e “imparcial”.
O que chama atenção no texto, além do conceito de político ser baseado numa antítese que contrasta da teoria política atual, está expresso na passagem a seguir: “o moralmente mau, esteticamente feio ou economicamente prejudicial não precisa necessariamente ser o inimigo; o moralmente bom, esteticamente belo e economicamente lucrativo não precisa necessariamente se tornar o amigo no sentido especificamente político da palavra. Assim, a natureza inerentemente objetiva e a autonomia do político se tornam evidentes em virtude de sua capacidade de tratar, distinguir e compreender a antítese amigo-inimigo independentemente de outras antíteses” (p. 27). Parece ser uma passagem útil para pensar os critérios elencados pelo autor para definir quem é o inimigo independente de outras antíteses, coisa que parece um tanto quanto complicada atualmente. O autor deixa bem claro que o conceito de inimigo corresponde à eventualidade de um combate e que essa possibilidade sempre tem que existir para que se possa falar de política, mas esclarece também que, quando se refere ao “inimigo”, não se trata de inimigo pessoal, mas sim do povo.
Creio que essa é a ideia que se relaciona com a disciplina, porque no atual contexto diferentes grupos, posicionados em diferentes cantos do espectro político, parecem tomar diferenças morais como critério para classificar o adversário eleitoral como inimigo. Mas isso não parece se encerrar na esfera eleitoral, mas sim no clamor de que este “inimigo” prejudica a nação e por isso não teria o direito de disputar eleições, não teria o direito de exercer o poder e não teria o direito de se organizar livremente, mas para o autor em questão essas diferenças não são polarizações extraordinárias, mas sim situações típicas do dissenso político. Será que falta Carl Schmitt às lideranças políticas de hoje no Brasil?